Tocando agora...

Title

Artist

Background

David Guetta: “A morte de Avicii mudou a minha vida”

Postado por: on 9 de agosto de 2019


David Guetta teve um 2018 marcante. Em 14 de setembro, lançou Seven, sétimo e um dos mais especiais álbuns de sua carreira, já que marcava uma divisão entre o projeto pelo qual é mais famoso, com muitos hits recentes, e o Jack Back, seu projeto paralelo de tech house, que aparece como autor das últimas dez faixas do disco.

Depois de alguns releases, um filme bem interessante — The Road to Jack Back — em que ele explica as razões que o levaram a criar o codinome e algumas importantes gigs marcadas [o Jack Back é residente da Hï Ibiza nesta alta temporada da ilha], podíamos esperar que sua nova persona assumisse o protagonismo em sua carreira, mas o astro francês mostrou que segue firme e forte como David Guetta. O que não significa que as coisas não mudaram.

Além de uma liberdade maior para produzir som underground livre do compromisso com o sucesso, David contou, em papo que batemos por telefone em maio — à época do lançamento de “Stay” —, que o Jack Back vem influenciando seu principal “alias”.

Na conversa, que você lê abaixo, além da relação aparentemente contrastante entre seus dois projetos, falamos sobre Brasil, pressão para o sucesso e o impacto que a morte de Avicii provocou em sua vida e em seu trabalho.

David, você não toca aqui desde 2017, não é mesmo? E aí, saudades do Brasil?

Sim, exatamente. Eu costumava vir todo ano, tenho saudades!

Tem planos para voltar?

Não no momento, mas adoraria.

Você acaba de soltar seu novo single, “Stay”, e eu estava um pouco confuso, porque à época do lançamento do Seven, você disse ao Pete Tong que era o fim de um ciclo. Imaginei que você estava dando uma de Calvin Harris — veio do underground, “obedeceu ao sistema” [risos] por algum tempo e agora quer apenas se divertir…

Exatamente [risos]!

Achei então que você focaria mais no Jack Back, mas para minha surpresa, segue fazendo muitas músicas pop como David Guetta — embora com um toque underground no fundo. “This Ain’t Techno” parece uma mistura entre tech house e big room, e “Stay” tem aquela vibe de house clássica…

Sim, absolutamente! Na verdade a faixa é totalmente house music, mas é uma canção pop. É um crossover, mas se você ouvir o instrumental, é totalmente house.

“O Jack Back está influenciando o David Guetta.”

Então como vai ser a partir de agora? Você tem dois projetos totalmente diferentes, um para o mainstream, em que você precisa fazer hits, e outro para o underground, no qual você pode fazer o que der na telha?

Sim [faz uma pequena pausa para pensar]… Na verdade, o que acontece é que eu não vejo necessariamente dessa forma. Eu estava falando sobre a pressão de entregar hits, mas eu amo fazer música pop. E é muito difícil — as pessoas pensam que é fácil, mas não é. Ao mesmo tempo, eu quero poder fazer um groove, alguns sons em que eu não precise obedecer a nenhuma estrutura, ou que tenha que ir para o rádio.

Mas o que é divertido em “Stay” é que o Jack Back está influenciando o David Guetta [risos]! Apesar de “Stay” ser uma faixa pop, tem aquele groove da house no fundo. Eu só quero me divertir. A ideia do Jack Back é que eu realmente queria estar livre e sem sentir pressão o tempo todo. Eu faço isso por diversão. E ao mesmo tempo estou muito orgulhoso de “Stay”. Ela é exatamente eu neste momento: voltando para as minhas raízes na house, mas ao mesmo tempo, ainda é uma música grandiosa.

Então você vai seguir lançando singles e também se apresentando com os dois projetos…

Sim, exatamente.

A partir do dia em que você faz um hit, todo mundo espera que você apenas lance hits — e porque a expectativa é tão alta, você tende a ousar menos.

Eu vi uma entrevista interessante em que você falava sobre ser vítima do próprio sucesso, de ficar tão viciado no sucesso e acabar temendo perdê-lo. Quando isso aconteceu, você andava insatisfeito com a sua música? Diria que estava mais fazendo negócios do que arte?

O que acontece é que eu fiz algumas músicas como “Titanium”, “I Gotta Feeling”, “Memories”… Elas são pop, mas eu sou extremamente orgulhoso delas. Eu era o líder de um novo som; criei um novo estilo musical, em que estava combinando urbano e eletrônico, e aquilo era muito excitante.

Eu estava apenas dizendo [naquela entrevista] que houve um momento da minha vida em que talvez eu estivesse trabalhando muito baseado em experiência — porque eu sei como fazer uma música —, e não estava correndo riscos de ser mais criativo…

Você estava preso às fórmulas de sucesso…

Sim, e aquilo não estava me fazendo feliz. Por isso eu fui um pouco mais para o extremo com o Jack Back, sem precisar me prender a fórmula alguma, e também para fazer músicas como “Stay”, que é pop, mas é realmente eu…

“É isso que eu acho que é o underground: é apenas sobre a música.”

E agora, mesmo como David Guetta, você tem a liberdade para fazer exatamente o que quer?

Não [risos]! Infelizmente a pressão não está totalmente ausente, é impossível. Não somente comigo, mas com qualquer artista de sucesso, é totalmente normal. Só não é agradável, porque quando você começa, você experimenta sons diferentes, ninguém espera que você faça sucesso. Então você erra, erra, erra, mas um dia você acerta e é ótimo. Mas a partir do dia em que você faz um hit, todo mundo espera que você apenas lance hits — e porque a expectativa é tão alta, você tende a ousar menos. Então é aí que você começa a seguir tendências mais do que criá-las.

Acho que qualquer artista passa por isso, porque é impossível ficar criando tendências sem parar. Creio que tenho em minha carreira três estilos diferentes, e isso já é algo enorme, porque normalmente um produtor surge com um som que emplaca por cinco anos e desaparece. Espero conseguir fazer isso ainda quatro ou cinco vezes, mas não consigo todo ano — eu não sou Deus [risos]!

Diferentemente do Jack Back, que, como você já disse, é um projeto em que tem toda a liberdade para fazer o que quiser… E quanto às turnês com esse projeto?

Não farei exatamente turnês, porque eu quero manter as coisas menores. Eu poderia fazer isso [grandes turnês], mas se eu for por esse caminho vai ser a mesma coisa. Se [como Jack Back] eu começar a tocar em festivais, terei que tocar hits — e se eu tocar hits, terei que produzir hits.

Então por ora eu só toco em clubes pequenos, tipo para 500 pessoas, onde posso tocar essa música sem compromissos… Estou também começando minha primeira residência em Ibiza como Jack Back.

No filme The Road to Jack Back, você disse que ser um DJ e ser um “entertainer” são coisas muito diferentes, o que concordo totalmente. Como um “entertainer”, você tem que tocar as suas músicas e entreter o público, porque eles amam você e estão ali para vê-lo. Mas como DJ, você cria um set na hora, moldado para aquela pista de dança. Eu imagino que essas duas formas deixam você feliz, mas de maneiras completamente diferentes…

Exatamente! E quando eu falo sobre ser um “entertainer”, é também sobre o jeito que você se move no palco. É como o marshmello, ele tem toda uma imagem, é entretenimento.

Com fogos de artifício e toda aquela coisa…

Sim, estamos dando um show. Eu fui um DJ residente antes de me tornar o que chamam de DJ superstar, e eu tenho grande respeito por DJs residentes. Diz respeito apenas sobre a música e nada mais, e eu amo poder ser um DJ menor. É isso que eu acho que é o underground: é apenas sobre a música.

“Não me considero uma celebridade.”

David, 2018 foi um ano-chave no nosso cenário, e pra você parece ter sido super especial, com esse álbum simbólico, essa nova fase… Por outro lado, foi trágico, com a morte de Avicii, que foi um ponto da virada para o cenário eletrônico no mundo todo.

Desde então, as pessoas estão se abrindo, falando muito sobre saúde mental. Alguns DJs — Hardwell, deadmau5… — resolveram dar um tempo, buscar ajuda, por perceber que não é saudável esse estilo de vida excessivo, intenso. Você, que toca há mais de três décadas, já passou por momentos assim? Como os DJs podem lidar com isso?

Claro. Acho que honestamente, nós passamos uma imagem de festa e felicidade, mas somos como todo mundo. Nós temos altos e baixos, mesmo vivendo uma vida tão maravilhosa. E sim, eu era um bom amigo do Avicii, fizemos muitas músicas juntos, e eu me identificava muito com ele.

Na verdade, é exatamente o que eu estava descrevendo — a diferença entre um “entertainer” e um DJ —, ele também foi vítima desse sistema. A pressão de ter que lançar grandes hits o tempo todo, de tocar para 20 mil pessoas, e quando você toca pra essa quantidade de pessoas, você precisa tocar grandes hits. Então todo esse sistema e o jetlag constante, o estilo de vida é pesado fisica e mentalmente. Todos nós tememos isso, e todos temos momentos, mas ninguém nunca falava sobre isso, porque temos o nosso orgulho e queríamos ser super homens.

Mas eu acho que o que aconteceu com o Avicii nos fez pensar. Eu realmente mudei minha vida depois disso, estou viajando muito menos agora — e é exatamente por isso que você me vê menos no Brasil também. Ainda estou tocando bastante, mas tento ficar na mesma região. Fico três meses na América, quatro meses na Europa… Faço menos aquele vai e volta louco. Vi que o Hardwell parou, e outros grandes DJs também, porque todo mundo ficou assustado — poderia ter acontecido conosco. Foi muito trágico, mas também uma boa lição para todos nós.

Com MORTEN e vocal de Aloe Blacc, “Never Be Alone” é o lançamento mais recente de David Guetta

Quando você encerrar sua carreira e não estiver mais por aí, como gostaria que as pessoas se lembrassem de David Guetta?

Acho que [pausa pra pensar]… Não sei se vão se lembrar de mim, não sou tanto uma pessoa pública. Acho que vão se lembrar mais da minha música. Não me considero uma celebridade, não fico aparecendo nessas revistas de fofoca, não tenho esse tipo de vida. Mas espero que eu tenha feito músicas que importem — que eu tenha escrito o meu livro na história da música.

Uma coisa que me deixa muito feliz é quando as pessoas me falam coisas como: “eu conheci minha esposa ouvindo o seu som”, “eu usei a sua música no meu casamento”, “essa sua faixa me lembra de momentos muito felizes na minha vida”… Isso é incrível, quando as pessoas associam momentos felizes da sua vida com a minha música.

Fonte: PHOUSE/* Flávio Lerner é editor da Phouse.


Reader's opinions

Leave a Reply

Your email address will not be published. Required fields are marked *